quinta-feira, 1 de março de 2018

Uma visão feminina sobre Lady Bird (2017)


Sinopse: Christine "Lady Bird" MacPherson está no último ano da escola e se sente deslocada. Ela quer aventura, sofisticação e oportunidades, mas não encontra nada disso em sua escola na pequena cidade de Sacramento. O filme acompanha sua jornada no último ano e suas descobertas da juventude.
 Indicações do Oscar: 5.
  1. Melhor filme
  2. Melhor atriz (Saoirse Ronan)
  3. Melhor atriz coadjuvante (Laurie Metcalf)
  4. Melhor roteiro original
  5. Melhor direção (Greta Gerwig)
Jornada. Acho que é a primeira palavra que me vem a mente quando penso em Lady Bird. Escrevo essa postagem algumas horas depois de ter assistido ao filme, com algumas opiniões e emoções ainda sendo absorvidas.

A história é simples, é um daqueles filmes que quando você tenta indicar à alguém é difícil arranjar todas as palavras pra que de fato se consiga descrever o filme e do que ele trata. É um filme cheio de camadas, e pra assisti-lo eu te aconselho: veja com calma, preste atenção, os detalhes fazem tão parte do filme como o resto.

Lady Bird é uma adolescente, Christine, que como a maioria dos adolescentes possui algum motivo para se rebelar e se revoltar por algo, no caso dela, é sobre a sua vida como um todo. Lady Bird precisa enfrentar o último ano de escola em uma escola católica, aonde conhece outros personagens secundários, mas que acabam, de alguma maneira, também pincelando como principais.

A primeira coisa a dizer sobre esse filme é que ele é essencialmente feminino. Os personagens, questões e diálogos femininos tem o papel de destaque na trama. A relação mais importante do filme é entre mãe e filha. A segunda de destaque é a amizade entre duas meninas (Julie e Lady Bird). Os papéis de autoridade são femininos, a iniciar pela freira que dirige a escola, a mulher que orienta Lady Bird quanto a suas possibilidades com a faculdade. Prestando bem atenção, pouco espaço foi dado aos homens nesse filme, mesmo quando estão diretamente ligados a Christine, como os rapazes com quem se relaciona.

Me fez pensar se o período histórico e cultural em que estamos, aonde a luta pelo feminismo recebe cada vez mais destaque entre as redes sociais e as mulheres, talvez tenha influenciado o filme e talvez, ainda, influenciado o "burburinho" que ronda o filme. Sem dúvida é completamente diferente ver um filme em que as mulheres ocupam a maioria dos espaços e aonde a voz delas é maior do que quaisquer outras, ainda causa um estranhamento, quando somos tão acostumados com filmes que mostram apenas o lado dos homens e em que as mulheres quase não ocupam espaço algum. O que me lembra de filmes como O poderoso chefão, que são incríveis, mas me faz pensar: nós não temos estranhamento algum quando as vozes e questões de importância e os personagens de destaque são somente masculinos, mas há ainda um incômodo quando a situação é inversa e as mulheres tomam o lugar de voz.

Acho que há dois pontos que posso salientar como os mais interessantes do filme:
1. O amadurecimento da personagem - Nós começamos o filme acompanhando a trajetória de Christine, já sendo apresentados ao "nome que ela deu a si mesma" (como ela descreve): Lady Bird. Entendo isso como uma tentativa de se distanciar, tentando criar ou captar um mundo só seu e vendo como solução pra isso se distanciar do que tem, mesmo que seja seu nome. Começamos vendo a personagem com diversos questionamentos da adolescência, assim como uma ansiedade enorme por uma vida que ela idealiza, em uma universidade longe da cidade em que mora, Sacramento e longe do que conhece.

Nesse ponto temos uma cena muito interessante, aonde a diretora da escola conversa com Lady Bird sobre a redação que escreveu para tentar entrar na universidade e nessa redação fala sobre Sacramento. A diretora fala que é muito bonito o quanto ela ama Sacramento e ela responde que "apenas estava descrevendo a cidade, que apenas presta atenção" e então a diretora diz algo como "Mas não é disso que se trata o amor? Prestar atenção?"

2. A relação entre mãe e filha - Christine tem um ideal de vida e busca insistentemente por ele. Inclusive mentindo sobre algumas coisas. Enquanto a sua mãe, envolvida pela realidade da família, com o marido prestes a perder o emprego e dobrando plantões para dar conta da casa, acaba cortando as ideias sonhadoras de Christine com doses de realidade e algumas vezes até um pouco de amargor. Mas o principal sobre essa relação é o quanto ela é visceral, o quanto é realista. Apesar da diferença de personalidade das duas, dos desentendimentos, se mantendo, de forma ou outra, unidas. Há uma cena que ilustra bastante a relação das duas que é quando buscam um vestido pra Christine e quando estão numa loja, discutem ferrenhamente até que se deparam com o "vestido perfeito" e então toda a discussão é deixada de lado.

Há inúmeras outras questões abordadas no filme, desde a virgindade e as questões que rodeiam isso, até amizade, relacionamentos e até mesmo depressão.

!!! Alguns detalhes que eu não poderia deixar passar:
1. O filme mostra algumas atitudes erradas da Lady Bird que não têm a devida importância, como uma cena em que ela faz um comentário racista e outra em que comete um "delito", mas nada acontece a personagem. Fiquei esperando que fossem retornar a esses fatos e mostrar algum arrependimento por parte da personagem, o que não aconteceu, deixando as questões como se fossem apenas "coisas triviais de adolescente" sabe? O que eu discordo plenamente.

2. O filme não é, de nenhuma forma, representativo. E quando eu digo isso, quero dizer que a adolescência e a vivência dessa transição entre esse período e a vida adulta não vai, na maior parte dos casos, acontecer como exemplificado no filme, então, a pequena faixa de pessoas realmente representadas no filme (mulheres brancas de classe média nos EUA) é, de fato, muito pequena, até mesmo se destoarmos apenas um pouco para: mulheres negras de classe média nos EUA, com certeza veremos grande diferença. O que eu quero dizer é: apesar de um filme com uma ótica feminista, não é um filme que traz representações importantes de outras classes/raças/lutas.

Em resumo, o filme, na minha opinião, é muito sensível, muito visceral e de muitas camadas. Nós vemos cada personagem passar pela vida de Christine e o impacto de cada um na sua vida, assim como o amadurecimento dela. Não é, nem de longe, o tipo de filme que vai agradar a todos (principalmente quem preferir os filmes de ação, aventura, com grandes reviravoltas e cenas de grande perigo), mas acredito que é um filme que, se alguém se propor a ver, deve ser visto com calma e com atenção, porque os detalhes importam bastante. Há alguns erros, como citei logo acima, mas vale a pena ver, mesmo que seja para que tirar as próprias conclusões.

Um comentário

  1. Adorei seu post! Não vi esse filme ainda, mas fiquei curiosa, principalmente pela presença feminina no filme. Enquanto lia o post fiquei pensando, realmente estranhamos quando vemos muitas mulheres em posições de poder, não deveria ser assim, mas estamos muito acostumados, infelizmente.
    Beijoos
    Yanna Karim

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